INTRODUÇÃO

 A história da fundação de Torres foi descrita pelo notável historiador desta cidade, Dr. Ruy Rubem Ruschel, na sua obra "São Domingos das Torres",  nas suas publicações no jornal local  GAZETA e mais recentemente no livro  “Torres Origens”, lançado neste ano de 1995. É  graças ao laborioso e dedicado trabalho deste emérito professor, que  grande parte da população de Torres, conhece razoavelmente sua história.  Várias passagens do presente trabalho foram baseados nas obras do Dr. Ruy, que sem dúvida são até então os mais confiáveis estudos históricos já realizados sobre Torres. Pela riqueza de detalhes dos assuntos abordados, foram reproduzidos na íntegra alguns os textos deste historiador (com a devida autorização), como se verá adiante...
 

I  -  EVOLUÇÃO HISTÓRICA  DE TORRES
 

1.1 -  COMO ERA TORRES ANTES DO DESCOBRIMENTO ?

 A região de Torres, antes do descobrimento do Brasil em 1.500, era habitada pelos índios  Guaianás, da nação Tapuia ou Jê e os Cariós, da nação Guarani . Também são apontados como povoadores do litoral os índios tupis das tribos Carijó e Arachãs.  Observa-se que embora exista certa controvérsia sobre os primeiros moradores e quais tivessem sido as Tribos qual viveram nesta região, o que importa é ter em mente que estes não agrediam a natureza mais do que o necessário para sua sobrevivência, basicamente extrativista. Logo, considera-se que a paisagem natural, permaneceu por centenas de anos praticamente inalterada, modificando-se somente após o   início do povoamento “civilizado”.

 Vislumbra-se Torres naquela época,  à partir do Rio Mampituba, com suas dunas intactas, os morros cobertos por vegetação nativa,  e a presença de densos tiriricais ao redor da Lagoa do Violão. A oeste, passando os banhados, iniciava a mata Atlântica. Sobre as torres, principalmente acompanhando as margens da Lagoa, haveria de ter uma mata composta de Jerivás e outras árvores nativas de porte alto, diminuindo suas estaturas à medida que avançavam para a costa, sendo então substituídas por plantas arbustivas e rasteiras nas proximidades do mar.

 Esta paisagem natural, aliada a peculiaridade do estreitamento da faixa litorânea causado pela proximidade do mar  com os banhados (lagoa do Violão), permite que se conclua que a presença dos silvícolas, sobre onde hoje é o centro da cidade de Torres, era  denotada apenas pela possível trilha  ao longo dos morros (que seria a atual Rua Júlio de Castilhos)  e pelos sambaquis* utilizados na permanência destes. Verifica-se que este “caminho” era a passagem obrigatória das tribos litorâneas nômades, que certamente deve ter sido utilizado por muitos séculos  antes dos “descobridores” das Américas.

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* - Acúmulos naturais de mariscos comumente utilizados pelos silvícolas como local de acampamento.

 
1.2 - AS PRIMEIRAS INTERVENÇÕES ANTES DA FIXAÇÃO DA POVOAÇÃO.
 

 A primeira expedição portuguesa   destinada a fazer o reconhecimento da costa brasileira, partiu de Lisboa em 1530, sob o comando de Martim Afonso de Souza. As ordens deste navegador era de percorrer o litoral do Brasil até o Rio da Prata e expulsar eventuais piratas franceses. Observa-se porém, que pelo Tratado de Tordesilhas (firmado com a Espanha em 1494) o território pertencente a Portugal era somente até Laguna, daí para baixo pertencia à Espanha.
 
 
 
 
 
 
 
 

 Segundo Dr. Ruy Rubem Ruschel,  em sua crônica  “O Rio Martim Afonso”(5), a esquadra de Martim Afonso passou em frente à Torres entre setembro e outubro de 1531, mas devido ao mau tempo,  nada foi registrado sobre estas terras na oportunidade. Somente no retorno da frota do Rio do Prata, em janeiro de 1532, é que uma das caravelas (Santa Maria do Cabo) aproximou-se da costa. Na oportunidade batizaram o Rio Mampituba de Rio Martim Afonso de Souza, nome este que perdurou até o século XVII.  Estes registros marcaram o primeiro contato  da “civilização moderna” com as terras torrenses.

 A partir dos séculos XVII, começaram a passar por Torres as expedições de portugueses aventureiros e escravagistas (denominados pelos historiadores de bandeirantes) em busca de riquezas e de índios para serem vendidos na Capitania de São Vicente (São Paulo). Com a “consolidação” do mercado de escravos índios, alguns traficantes estabeleceram-se em Laguna (limite das terras pertencentes a Coroa Portuguesa pelo Tratado de Tordesilhas) e utilizaram-se dos índios de Santa Catarina para invadirem o território espanhol para capturarem os silvícolas Rio Grandenses. Para alcançar nosso estado (RS), os escravagistas utilizavam a estrada natural da beira mar,  cruzando a Foz do Mampituba e passando pela trilha existente sobre os morros de Torres.

 As caçadas humanas empreendidas ao sul de Laguna trouxeram, duas conseqüências trágicas sobre a região de Torres.  A primeira conseqüência foi seu total despovoamento, gerado tanto pela morte, captura ou extradição dos índios nativos, como  pela fuga dos sobreviventes para cima da serra.

  A segunda conseqüência foi o insucesso dos Padres Missioneiros (entre 1605  e 1640) em criarem aqui aldeias jesuíticas. Os nativos catequizados seriam presas fáceis para os escravagistas,  que levavam cativos mesmo os novos “católicos”, desta forma os Padres preferiram levar seus fiéis aos centros livres próximos de São Paulo e Rio de Janeiro, contribuindo para o despovoamento.  Segundo Dr. Ruschel, há relatos de terem sido levados milhares de índios para  aquelas regiões. Os Padres Franciscanos foram proibidos de continuarem seu ofício, por ordem das autoridades Paulistas, por entenderem que estes missioneiros estavam “concorrendo” com os empreendimentos escravagistas.

 Sobre esta situação inicial, causada pelas  invasões  e perseguições empreendidas pelos aventureiros e escravagistas sobre o povo que aqui habitava (a centenas de anos), indaga-se em como poderia ter prosperado diferentemente a região se estes “moradores torrenses” ao invés de serem perseguidos e extraditados tivessem sido utilizados na formação de aldeias impulsionando o  desenvolvimento da região, como queriam os Padres  Franciscanos? Afinal, não pode-se deixar de observar que os milhares de índios levados daqui,   “contribuíram” na construção  e colonização dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
 

 1.2.1 - A PRIMEIRA OBRA CONSTRUÍDA EM TORRES

 No século XVIII, por volta do ano de 1776/1777, os portugueses construíram sobre o morro do farol uma fortificação militar, chamada de Forte SÃO DIOGO (fig2). Este “forte” foi  destinado a impedir a passagem dos espanhóis que haviam invadido a Ilha de Santa Catarina (Florianópolis) e que pretendiam dirigir-se por terra e conquistar  as outras cidades desta Província (Rio Grande, Rio Pardo e Porto Alegre), numa tentativa de  retomar as terras gaúchas  que pelo Tratado de Tordesilhas de 1495 pertenciam à Coroa Espanhola (terras abaixo de Laguna-SC).

 O objetivo maior do Forte São Diogo, que era de evitar a pretensa invasão espanhola, idéia esta que  sucumbiu frente ao Tratado de Santo Ildefonso, assinado em 1777 pelos Reis da espanha e Portugal.  Através deste Tratado, Portugal abriu mão da Colônia de Sacramento (hoje  pertencente ao Uruguai) para ficar com as Missões (oeste do Rio Grande do Sul). O efeito mais importante desta  fortificação foi de ter permitido a fixação dos primeiros colonizadores (Açoreanos em sua maioria) nas proximidades de Torres e ao longo do litoral Gaúcho. Nesta época  todo este território havia se tornado em um imenso despovoado, devido as caçadas aos índios empreendidas pelos escravagistas. O Forte São Diogo, após o Tratado ficou longe de seu objetivo inicial de resistência à invasão Espanhola, mas mesmo assim a sua desmobilização foi lenta, uma vez que segundo Dr. Ruy (1),  em 1797 ainda restavam dois canhões e uma pequena guarnição e pela menção de Auguste Saint-Hilaire (ver item 1.3.3) ainda persistia este receio  em 1820.

1.3 - O NASCIMENTO DE TORRES
 1.3.1 - O FUNDADOR

  Dr. Ruy, aponta em suas obras o Alferes Manoel Ferreira Porto como o fundador de Torres, considerando que este, tendo sido nomeado a Guarda de Registro, dirigiu-se para cá em 1809, fixando-se inicialmente no Morro da Itapeva. Mais tarde por volta de 1814, o Alferes transferiu o Posto de pedágio e a guarnição de três homens para cima do Morro do Farol, formando a base precursora da fixação da futura população urbana.

 Segundo este historiador, naquela época ... " O sítio das Torres não passava de um deserto, cheio de matagal e banhados. O Título de "Guarda de Registro" era pomposo demais para o lugar. Onças rondavam a guarita, jacarés tomavam sol nas margens da Lagoa do Violão. Havia só três soldados à disposição do Sargento Porto (mais tarde promovido a Alferes). Sua tarefa era modesta: apenas controlar a passagem das carretas que trafegavam entre Porto Alegre e Laguna, para evitar o contrabando."

 Verifica-se porém, nas menções do igualmente emérito historiador, Dante de Laytano, a indicação de D. Diogo de Souza como fundador de Torres, por considerar ter sido fundamental a sua determinação, como Governador da capitania, de levantar uma Fortaleza Militar no Sítios das Torres, para onde foi designado o Sargento Manoel Ferreira Porto.
 

 Analisando-se simplesmente o mérito administrativo atribuído a  D. Diogo, pode-se até citá-lo como  fundador, entretanto, nada poderá superar o espírito de desbravador do Sargento Porto, (tão bem relatados pelo Dr. Ruy não existindo dúvidas sobre seu heroísmo e disposição em ver proliferar esta nova colonização.

 O Alferes Manoel Ferreira Porto, foi o primeiro morador a fixar residência sobre o Morro do Farol,  erigiu a Igreja Matriz, criou seus filhos, empreendeu o desenvolvimento da região, e aqui morreu. Motivos pelos quais entende-se que deve levar o mérito e a homenagem merecida de ser o verdadeiro fundador de Torres.
 

 1.3.2 - A PRIMEIRA CASA.

 Nas publicações do Dr. Ruschel (Torres Espaço e Tempo, Jornal GAZETA), em especial "Uma Relíquia Histórica I"  e "Uma Relíquia Histórica II", o eminente professor escreve sobre a primeira casa de Torres. A riqueza desta crônica em situar o marco inicial do futuro centro urbano, nos permite reproduzir-mos a seguir o seu conteúdo:

 "Raríssimas são as comunidades mais-que-centenárias que guardam o privilégio de poder exibir sua primeira moradia. Torres ostenta essa qualidade. Por sorte histórica a casa em que residiu o fundador e primeiro morador da localidade preservou-se até agora e poderá, se houver vontade política, transformar-se em uma RELÍQUIA DA CIDADANIA TORRENSE. Trata-se do prédio nº 1 da praça Coronel Severiano Rodrigues da Silva, situado a poucos passos ao sul da Igreja São Domingos. De um de seus lances, formado de pedras unidas por barro, em estilo colonial, foi construído nos primórdios do século XIX ...

 ... Três documentos, datados de 1815 e 1816, fazem ligeira referência a essa casa. O primeiro foi o diário de viagem do Bispo do Rio de Janeiro. D. José Caetano da Silva Coutinho (. Em visita pastoral à capitania de São Pedro (Rio Grande do Sul)... a autoridade religiosa escreveu: “Crismei e fui receber uns noivos Nas Torres, em casa mesma do Alferes comandante, a cuja família fiquei muito afeiçoado.

 ... Os outros dois documentos são também relatos de viagens, desta vez de militares portugueses que conduziam tropas para lutar no Uruguai contra Artigas. O Cel Claudino Pimentel chegou com seu contigente em 19-07-1816 e registrou dessa maneira "Houve sofrível acampamento em Torres, estância com duas casas".

 O Cel. Francisco de Paula D'Azeredo passou em 02-08-1816. O cronista do destacamento escreveu: "Foram pernoitar no Sítio de Torres, que tomou esse nome de dois grandes morros que avançam sobre o mar e que de longe parecem como elevadas torres. Neste sítio havia apenas duas casas com seus moradores".

 Portanto, no sítio das Torres havia em 1816 somente duas moradias, uma delas sendo do Alferes Manoel Ferreira Porto. A outra talvez pertencesse ao empreiteiro de tributos Domingos Antônio da Costa Guimarães, referido ligeiramente no diário do Bispo.

 Naquele instante histórico ainda não havia começado o núcleo urbano nas Torres. Os demais habitantes da região, umas quatrocentas almas do Mampituba à Estância do Meio (Arroio do Sal), viviam dispersos em moradas rurais. "

 1.3.3 - A IGREJA

 A fixação da cidade de Torres, onde hoje se encontra,  deve-se sem sombra de dúvida à construção da Igreja São Domingos (1820-1824) sobre o atual Morro do Farol.   No capítulo "A velha Matriz de São Domingos" do livro do Dr. Ruy Rubem e Dalila Ruschel (2), estes autores ressaltam a sua importância no "nascimento de Torres":

 "(...) Como tantas outras na formação sociológica brasileira, a velha igreja de São Domingos foi antes o efeito de maturação do povoamento rural da zona e depois o marco inicial de sua vocação urbana.

 Quando em 1815 o bispo D. José Caetano da Silva Coutinho, do Rio de Janeiro, fez aí sua visita pastoral, havia perto de quatrocentos moradores entre o Rio Mampituba e a Estância do Meio (hoje Arroio do Sal).  Fazia menos de 40 anos que o povoamento se iniciara, com elementos vindos de Santa Catarina, filhos e netos de Açoreanos, fixando-se não longe da antiga estrada litorânea, nos campos arenosos entre o mar e a Lagoa da Itapeva. Foi para atender a essa gente que o bispo autorizou, no dia 4 de outubro de 1815, a construírem uma capela e assim se livrarem da dependência de viagens à distante paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Arroio, hoje Osório.

 Entretanto, logo surgiram divergências acerca do local em que deveria ser erguida a capela. Um ponderável movimento pretendia que fosse no Morro da Itapeva, mais próximo da maioria  das propriedades  rurais de então, interessando às famílias de Martins da Rocha, Silveira, Cardoso e outras, que naquela época sepultavam seus mortos no cemitério da Itapeva (...)

 Segundo o Dr. Ruschel,  a construção da Igreja foi iniciada sobre o atual Morro do Farol, pelo menos por quatro motivos relevantes: a doação da Sesmaria de Torres ao Alferes; o prestígio deste, que foi designado pelo Bispo para arrecadar as esmolas destinadas à obra; o seu interesse em manter-se mais próximo das terras que adquirira às margens do Rio Mampituba (hoje distrito da Pirataba) e a influência do comerciante Domingos Antônio, arrematante dos direitos fiscais da passagem dos Rios Araranguá, Mampituba e Tramandaí, com sede (?) no "Registro das Torres".

 Através desta passagem, verifica-se que  o nascimento da cidade de Torres e sua localização foi determinado pelo conjunto de interesses econômicos e religiosos dos seus ilustres moradores. Caso a igreja tivesse sido edificada sobre a Pedra da Itapeva, com toda certeza, lá seria a sede do município e não onde se encontra atualmente.
 

 A primeira descrição detalhada de Torres, que se tem conhecimento, foi feita pelo naturalista e historiador AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE (10),  que passou por aqui em 1820 e narrou o que viu. O próprio texto demonstra sua importância histórica:

 TORRES, 4 , segunda-feira, 5 de junho de 1820. - Sempre areia e mar. Enquanto nos dias anteriores só avistávamos uma praia esbranquiçada que se confundia com o céu na linha do horizonte, hoje, ao menos, deparamos dois montes denominados Torres, porque realmente avançam mar adentro, como duas torres arredondadas . Para as bandas do oeste, recomeçamos a avistar a grande cordilheira que há muito tempo não víamos. Cerca de uma légua (*) daqui, encontramo-nos à margem do Rio Mampituba (pai do frio) (**),  que, atravessando a praia, se lança ao mar, após separar a Província de Santa Catarina da  Capitania do Rio Grande do Sul; passamo-lo do mesmo modo que o Rio Araranguá. É também  à  guarda de Torres que se paga o pedágio. Continuado a viagem, chegamos aos montes que têm esse nome;  um relvado muito rente ao chão,  um pouco mais elevado que a praia,  estendesse à beira mar, acima do monte que fica mais ao norte.

 Como há projeto de se localizar em Torres a sede de uma paróquia, começaram a construir aí uma igreja, da qual até agora existe apenas o madeiramento. Depois de passarmos por essa igreja, chegamos a um forte, cuja construção está ultimada neste momento e junto ao qual se acha o alojamento dos soldados do posto e o do alferes que os comanda. Estas construções estão situadas no lado ocidental do monte, local donde gozei  um panorama que se me afigurou mais encantador do que efetivamente era, por causa da monotonia dos areais áridos, batidos pelas ondas.

 Quase ao pé do monte estende-se , paralelamente ao mar, um lago de águas tranqüilas  e cercadas de altas ciperáceas; do outro lado crescem matas em terreno plano. A direita vêem-se ainda areais puros  e,  por fim,  o horizonte limitado pela grande cordilheira, cujo cimo forma um imenso planalto.

 ... A construção do forte a que me refiro acima, estava em andamento, embora não se acreditasse na invasão espanhola...

 De qualquer modo, o forte está sendo levado adiante, voltado para o norte e podendo ser dotado de quatro peças de artilharia. Empregam-se  em sua construção, cerca de trinta prisioneiros, tomados a Artigas. À exceção de um, os demais são índios...
 

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* - A légua portuguesa  mede 6.179,74 m . A légua Brasileira mede 6.600 m.
** - Também traduzido como "rios de muitas curvas"  e como  “Rio de muitas boipebas (cobras-chatas) .
 

 Torres, 6 de junho ...Tendo já descrito uma parte que fica ao norte, vou concluí-la. É alongado, desigual e quase totalmente coberto com relva; o avanço que faz para o mar é arredondado como uma torre; oferece às ondas uma muralha de rochedos cortados a pique e termina por um terraço onde vegeta uma erva rasteira. Pelos flancos do monte crescem, em alguns lugares, duas espécies de cactos, um grande eryngium, bromeliáceas e arbustos ...

 O mais meridional dos dois montes principais está situado a algumas centenas de passos do primeiro; avança bastante pelo mar adentro, porém não apresenta forma regular e quase por toda parte é coberto de relva. Do lado do mar, igualmente escarpado, exibe uma chanfradura profunda, onde as ondas vem quebrar-se contra as negras rochas.

 À entrada dessa chanfradura, do lado norte, há uma enorme caverna onde dificilmente se entraria, por causa do mar e da direção vertical dos rochedos.

 Além desse último monte, vê-se ainda um terceiro, muito menos importante que os dois outros, com o feitio de uma albarda, sendo quase todo coberto de relva. Na frente, um rochedo exatamente paralelo ao seu corte, configurando uma inacessível muralha íngreme.

 É do primeiro dos três montes que se frui o mais agradável panorama; pois dele se avista, ao mesmo tempo, o alto mar e o lago de água doce de que falei ontem.

 Saint-Hilaire,  passou aqui cerca de cinco anos após a fixação da moradia do Alferes Ferreira Porto,  onde já encontrou casas construídas, o novo forte e a Igreja em construção.  Supõe-se portanto  que a paisagem original  já estaria levemente modificada, pelo menos quanto a sua vegetação.  Acredita-se que antes de Saint-Hillaire,  existiam nas proximidades da Lagoa do Violão e subindo pela encosta do Morro do Farol,  alguns capões de mato.  Estas árvores teriam sido utilizadas na construção do Forte São Diogo em 1776/1777 e do Presídio das Torres  em 1920 (chamado de Baluarte Ipiranga após 1924) que estava em construção, servindo também de material para as casas, móveis,  para os  cercados  e para lenha.  Além do que, estas pequenas porções de mato nas proximidades de habitações e do forte favoreceria o ataque dos inimigos (os esperados Espanhóis e  eventualmente de bugres bravios em fuga), motivos pelos quais acredita-se deve ter sido praticamente retirado nos idos de 1814/1815.
 

1.4 - AS TERRAS DE TORRES
 1.4.1 - A origem das terras da Cidade de Torres (A Sesmaria).

 Conforme já mencionado nos capítulos anteriores, Torres foi concebida a partir da idéia dos colonos católicos de construir uma Igreja, motivados pela "enorme" distância da capela mais próxima, situada em Conceição do Arroio (Osório).
 

 Construir uma Igreja, mesmo nos dias de hoje, não é tarefa fácil pois exige além da boa vontade da comunidade (e do exaustivo trabalho em mutirão), “muito dinheiro". Pergunta-se então, como uma população escassa, relativamente pobre e isolada poderia responsabilizar-se por tamanha empreitada?  Certamente, o custo da construção da Igreja, deve ter sido na época um assunto muito discutido e pelo visto,  foram encontradas as soluções quando se propuseram ao feito. Analisando as possibilidades que dispunham estes heróis, pode-se apontar o mais provável caminho encontrado:

 Naquele tempo (início do Século XIX) Igreja e Estado estavam intimamente ligados, motivo pelo qual o Governo concedia áreas de terra para os novos povoados,   destinadas a proporcionar o seu auto-sustento através do recebimento de "pensões anuais" dos  lotes repassados aos novos moradores pelo sistema de contratos de Aforamento*

 Para melhor entender-se este sistema de colonização e de sua auto-sustentação, reproduzimos abaixo a sucinta descrição dada pelo Dr. Ruschel, publicado no Jornal  Gazeta (11) .

 “ Dificilmente, no Brasil antigo se dava começo a um povoado sem a prévia garantia de uma propriedade pública comunitária, capaz de cobrir, com suas rendas, a manutenção do empreendimento. O sistema remontava aos tempos dos romanos. Estes, sempre que criavam uma nova colônia, atribuíam-lhe uma grande área de terras, denominada de “AGER PUBLICUS” (campo do povo). Daí é que saíam os lotes a serem distribuídos aos povoadores, mediante arrendamento perpétuo. Cada ocupante pagava anualmente uma renda - o “vectigal” - cuja soma se destinava às despesas da coletividade, como abertura e melhoria de ruas, construção de prédios públicos e templos, limpeza urbana, etc... Sistema similar foi introduzido pelos portugueses no Brasil, persistindo até o tempo do Império. Em nosso país, geralmente qualquer povoado passava por três fases: (1º) CAPELA; (2º) FREGUESIA; e (3º) VILA. As duas primeiras eqüivaliam aos “distritos”  de hoje; e a última ao atual “município”. Note-se que o nome CIDADE só se aplicava a uns poucos municípios mais importantes, como Salvador e Rio de Janeiro. Os demais eram vilas. Ao se constituir uma CAPELA - início do povoado - de regra já se lhe concedia uma área de terras públicas, para ficar segura sua sobrevivência econômica. Os moradores recém-instalados se obrigavam a um “foro” anual, em troca do lote para construir e plantar. Desse modo, a nova capela teria renda para gerir os interesses da coletividade. Às vezes, essas terras públicas nasciam de uma generosa doação particular de algum latifundiário. Outras, de uma concessão pública das autoridades superiores. O caso de Torres, reveste-se de aspecto peculiar. A doação foi privada, porém de uma terra que o Governo da Província tinha destinado a isso. (...) “
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* Transmissão de imóvel, onde o domínio direto permanece com o senhorio, ficando o enfiteuta com o domínio útil. O contrato obriga ao pagamento anual de  uma “pensão” ou forro. Mais adiante será explicado este sistema jurídico.

 A freguesia das Torres (como mais tarde passou a ser chamada) recebeu a sua sesmaria em 1815, do então Governador da Província  Marquês do Alegrete, que atendeu o pedido do Bispo  D. José Caetano. Esta sesmaria, destinada à construção da Igreja e formação de um povoado, segundo observou o Dr. Ruschel, reveste-se de certas peculiaridades pois  foi doada inicialmente a um “particular” - O Alferes Manoel Ferreira Porto.

 Consta no documento de doação datado de 20/11/1815, compilado pelo Dr. Ruschel dos documentos do  Arquivo histórico do Rio Grande do Sul (Livro 140, fl. 165, dos Registros de Sesmarias), que o Alferes recebeu como sesmaria "... meia-légua** em quadro, de terras de faxinas e matos, sitas em Santo Antônio da Patrulha (município a que pertencia Torres) entre as torres e Rio Forquilha (Mampituba) em cima da serra geral (?), fazendo fundos às terras já habitadas com frente ao mar (...). Estava incluído também neste documento, a seguinte cláusula "... e sendo preciso fundar-se vila, povoação ou freguesia no distrito dela, largará meia légua de terreno em quadro para fruição pública" - correspondendo a área total da doação.

 Essa área passou a ser considerada BEM DE RAIZ DA CAPELA; seria dividida em lotes a serem concedidos a todos quantos se propusessem a levantar suas casinhas; o foro anual que pagariam os concessionários serviria para suprir as necessidades do culto. Em conseqüência disso, quando em 1820 começou a edificação da Igreja de São Domingos, várias casas também foram aparecendo nos ditos lotes. Nelas, segundo Dr. Ruy, “ os habitantes rurais vinham passar os domingos e dias santos; vendeiros e artesões aí se instalaram para prestar serviços aos outros. (...) Nascia Torres.

 Observa-se que os foros serviriam para custear o custo do culto e algumas melhorias na fixação da população, mas seriam insuficientes para edificar a Capela. Conforme consta em uma carta datada de 1844*, a igreja somente pode ser edificada pelo deslocamento de uma guarnição (descrita por Saint-Hilaire no item anterior) que com recursos do tesouro e com mão de obra de prisioneiros guaranis levou a efeito o projeto, formando a nova paróquia.
 

1.5 - O CRESCIMENTO URBANO

 1.5.1 - Torres 1814/1870

 Conforme mencionado anteriormente,  a cidade de Torres foi concebida   a partir  da idéia de formar-se uma paróquia e de construir-se uma igreja. até aquela data (1814/1815), segundo os relatos do Bispo D. coutinho (8 e 9), haviam pelo menos duas casas sobre, localizadas nas proximidades de onde está hoje a igreja São Domingos. A população foi estimada naquela época em cerca de 400 almas espalhadas pelas redondezas.

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** A légua Brasileira mede 6.600 metros, logo, meia légua em quadro, considerando tratar-se de medida de superfície,  corresponde matematicamente a 3.300m x 3.300m = 1.089 ha (mil e oitenta e nove hectares), área que inicialmente pertenceria a Torres (13).
 

 Segundo Saint-Hilaire (ver item 1.3.3), em 1820 a igreja estava sendo iniciada, o forte estava sendo reconstruído e haviam várias casas, tendo se hospedado em uma delas. A Julgar-se pela existência de uma guarnição e de vários prisioneiros, supôe-se que havia um número  reduzido habitações nas proximidades da Igreja.

 O esboço de Torres (1), feito em 1825 (aproximadamente) por Debret,  a apenas cinco anos após a passagem de Saint-Hilaire, apresenta um “surpreendente” desenvolvimento. No quadro deste pintor está finalizada a primeira etapa da Igreja, e podem ser vistas em primeiro plano, a casa (provável) do Alferes Ferreira Porto à esquerda da Igreja,  e outra casa de boas dimensões ao lado direito.
 Da direita para a esquerda, logo ao lado da “porteira” (de controle do “pedágio” ?), foram retratadas várias casinhas, juntas umas das outras formando uma linha que chegava aproximadamente até onde é hoje a Prefeitura Municipal. A julgar-se pelas dimensões pode-se estimar então que deveriam haver pelo menos entre quinze a vinte habitações.
 Em 1826, mais precisamente em 17/11/1826, chegaram 421 imigrantes Alemães à Torres (86 famílias e 64 solteiros), que naturalmente foram fixados sobre áreas agricultáveis. Observa-se entretanto, que levou mais de um ano para serem assentados, permanecendo neste período “acampados” nas proximidades do futuro centro urbano(?).  Esta integração trouxe muitos benefícios para a comunidade nascitura, tanto pelo contato com uma nova cultura como economicamente pela circulação dos auxílios em dinheiro dados pela Coroa aos imigrantes. Houve nos anos seguintes um bom incremento da agricultura e das agro-indústrias de cachaça e farinha, intensificando-se o comércio de Torres com a capital,  desenvolvendo-se consequentemente as rotas lacustres e terrestres.

 Pela situação estratégica de Torres, “como porteira da Província do Rio Grande do Sul”,  após esquecidas as pretensas invasões espanholas, os moradores locais passaram a viver o desconforto das freqüentes turbulências políticas internas. Estas “revoluções” deixaram suas conseqüências marcantes sobre o pequeno núcleo populacional que se formava. Em 1835 eclodiu a Guerra dos Farrapos, sucedendo-se no controle da administração local, durante os dez anos de guerra, ora as guarnições revolucionárias, ora as legalistas (20/09/1835/ a 9/04/1836 Farrapos;  de 09/04/1836 a 29/04/1836 dos Legalistas; de 29/04/1836 a 28/05/1836 dos Farrapos;  após 28/05/1836 dos legalistas; após 1839 dos Farrapos e após 1840  dos legalistas). Como salienta Dr. Rui Ruschel  em Torres, Origens,  a guerra dos Farrrapos perturbou o desenvolvimento sócio-econômico de Torres, mas sob o aspecto político administrativo ganhou em importância, pois devido a esta guerra, em 1837 Torres passou oficialmente à categoria de Freguesia, equiparando-se aos atuais distritos de municípios.
 

  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 

1- Ruschel, Dr. Ruy Rubem. TORRES ORIGENS. Ed.  Gazeta. Torres. 1995.
2- Ruschel, Dr. Ruy Rubem e Dalila P. São domingos das Torres. Ed. Martins Livreiro, Porto Alegre. 1984.
3 - Ferreira Fº, Artur Ferreira. HISTÓRIA GERAL DO RIO GRANDE DO SUL - 1503-1957. Ed. Globo, Porto Alegre. 1957.
4- Ruschel, Dr. Ruy Rubem. Eixos Iniciais da formação urbana - Torres Espaço Tempo. Jornal a Gazeta, de 24/01/1992. Torres
5 - Ruschel, Dr. Ruy Rubem. O Rio Martim Afonso (I) - Torres Espaço Tempo - Jornal a Gazeta, de 03/02/95. Torres
6 - Magalhães, Álvaro et. alli. Dicionário Enciclopédico Brasileiro. Ed. Livraria do Globo. Porto Alegre. 1943.
7 - Leytano, Dante de. História de Torres. Pref. Municipal. Torres. 1972.
8 - Ruschel, Dr. Ruy Rubem. Uma relíquia histórica (I) - Torres Espaço Tempo - Jornal a Gazeta, de 24/06/94. Torres
9 - Ruschel, Dr. Ruy Rubem. Uma relíquia histórica (II) - Torres Espaço Tempo - Jornal a Gazeta, de 01/07/94. Torres
10 - SAINT-HILLAIRE, Auguste de. VIAGEM AO RIO  GRANDE DO SUL - Traduzido por Adroaldo Mesquita da Costa).
11 - GOULART, Jorge Salis. A Formação do Rio Grande do Sul. 4º edição, Ed. Martins Livreiro Editor, Porto Alegre, 1985.
12 - Ruschel, Dr. Ruy Rubem. Como nasceu Torres - Torres Espaço Tempo - Jornal a Gazeta, de 15/02/91. Torres
13 - Bacellar, Ruy H. Formulário Técnico. Ed. Globo. Porto Alegre.1947.
14 - Ruschel, Dr. Ruy Rubem. O “Ager Publicus”Torrense - Torres Espaço Tempo - Jornal  Gazeta, de 26/02/93. Torres
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17 - Isabelle , Arsène. Viagem ao Rio Grande do Sul, 1833-1834.  traduzido por Dante de Laytano. Martins Livreiro Editor. Porto Alegre. 1983.
18 - Lima, Oliveira. O Império Brasileiro (1822-1889). 2a. edição. Ed. Universidade de Brasília, Brasília,. 1986.
19 - Guedes, João Alfredo Libânio et alli. Atlas Histórico Escolar. 3a. edição. Serviço Gráfico do IBGE. Rio de Janeiro. 1967


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Hilton Luiz Ache Garcez
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